O samba paulistano, apesar de distante de suas raízes, ainda guarda alguns aspectos que o ligam à sua tradição rural e religiosa. “Após ter ganho o título do carnaval paulistano, alguns integrantes da Escola de Samba Vai-Vai foram a uma igreja do bairro e em seguida a um terreiro, antes mesmo das comemorações. A Unidos do Peruche antes do seu desfile recebe em sua quadra uma mãe-de-santo e um padre”, conta o geógrafo Márcio Michalczuk Marcelino. Segundo ele, essa atitude mostra a forte ligação entre o samba e a religiosidade, que marcou o nascimento desse gênero musical na cidade de São Paulo.
No início do século 18, em Pirapora do Bom Jesus, cidade próxima a São Paulo, o achado de uma imagem fez com que a cidade passasse a receber muitas religiosos, a maioria fazendeiros que iam agradecer pelas boas colheitas. “Essa visitação à cidade passou a ser anual e ocorre até os dias de hoje, no mês de agosto”, diz Marcelino, que pesquisou o tema em sua dissertação de mestrado Uma leitura do samba rural ao samba urbano na cidade de São Paulo, defendida no ano passado na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP.
O pesquisador conta que durante estas visitas a Pirapora, muitos senhores levavam consigo alguns de seus escravos. “A maioria o fazia para ostentar, como uma demonstração de poder”, lembra. Contudo, após a abolição da escravatura, os negros continuaram a freqüentar a cidade durante os festejos de agosto. Tanto que após a década de 1920 até meados de 1940, a festa era quase que exclusivamente dos negros.
Barracões Ainda com o apoio da igreja, foram construídos barracões para que os viajantes de outros pontos do estado dormissem durante os festejos de agosto. “Durante o dia os negros acompanhavam as cerimônias religiosas. À noite, nos barracões, aconteciam os batuques, as danças, e os desafios musicais”, descreve Marcelino. “Foi nesse momento que surgiu a figura do Chefe do Samba, que era o tocador do bumbo. Esse instrumento aliás, teve extrema importância no ‘samba rural’.” O pesquisador conta que o Chefe do Samba era o responsável por todo andamento dos desafios e danças, a maioria em improvisações, e acabava sendo a pessoa mais respeitada nas rodas.
Com o crescimento dessas manifestações, na metade da década de 1940 a igreja passou a proibir as manifestações fora dos eventos religiosos, chegando a destruir os barracões. “Foi quando a igreja passou a considerar toda aquela manifestação profana”, diz o pesquisador.
Rádio Nacional O pesquisador descreve ainda que entre 1940 e 1950, período do crescimento da industrialização, muitas pessoas vieram a São Paulo. “Um pouco antes, porém, o presidente Getúlio Vargas fechou algumas rádios da cidade. Foi quando teve início a hegemonia da Rádio Nacional do Rio de Janeiro”, diz. Segundo Marcelino, a partir desse momento os ouvintes paulistanos passaram a ouvir a programação da rádio carioca e, conseqüentemente, os sambas cariocas. “As origens do ‘samba rural’ paulistano começavam a ser apagadas.”
Mesmo assim, havia na cidade os cordões, que originaram a maioria das escolas de samba tradicionais de São Paulo, como a Lavapés, Vai-Vai, Camisa Verde e Branco. “Eles lembravam as procissões religiosas, o que é mais um traço do samba ligado à religiosidade”, ressalta. Mas, o samba em São Paulo ainda era marginalizado. “Enquanto no Rio de Janeiro uma senhora chamada Dona Siata conseguia reunir pessoas do samba e da cena carioca em geral, em São Paulo o gênero ainda estava na marginalidade”, conta Marcelino.
O pesquisador considera que até 1976, ainda na avenida São João, no centro de São Paulo, o samba paulistano das escolas de samba ainda tinha uma certa relação com o ‘samba rural’. “A partir daquele momento, quando os desfiles foram transferidos para a avenida Tiradentes e, posteriormente, para o Sambódromo, o samba paulistano das escolas tornou-se cada vez mais semelhante ao do rio de Janeiro, totalmente comercial e preso a regras”, lamenta.
Intimamente ligado ao bairro paulistano do Parque Peruche, na zona Norte da cidade, Marcelino identifica iniciativas de preservação, como uma escola local que adotou em seu currículo a história do samba de São Paulo, bem como grupos de samba de roda e jongo, principalmente no interior do estado. Além disso o pesquisador tem um projeto para constituir o que ele denomina “Casa de Cultura do Samba”. “Nem tudo pode estar perdido. Se proporcionarmos às pessoas, principalmente aos jovens, o conhecimento da história desse gênero musical em São Paulo, poderemos obter a médio e longo prazos iniciativas mais fortes de preservação dessa cultura”, avisa otimista.
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